O rolezinho do preto na TV pública é tema de livro inovador

Branquitude e televisão. A Nova África (?) na TV pública trata, com linguagem clara e despretensiosa, da criação do programa A Nova África na TV Brasil durante o governo Dilma.

 

Por Gabriel Nascimento*

 

A presença do preto (escolhi substituir a categoria “negro” por “preto” proposital e politicamente neste texto) nos mais diversos espaços de poder tem sido uma demanda crescente também em trabalhos acadêmicos. Com o crescimento da demanda em torno do local de fala (que prefiro chamar de lócus de enunciação, por entender que lugar de fala não traduz todas as hierarquias móveis do discurso que se fixam e se impermeabilizam na fala como algo fixo), os trabalhos acadêmicos têm questionado com muita legitimidade o chamado racismo epistêmico como sendo aquele que não só mata fisicamente as vítimas, mas mata também seu conhecimento e sua memória de vítima (ao ignorar a possibilidade de seu conhecimento ser legitimado enquanto verdade).

 

Nesse sentido, uma das maiores lideranças negras do nosso tempo, o estudioso Richard Santos, o Big Richard, da Nação Hip Hop, ex-jornalista de portais de comunicação (em seu currículo profissional passou pela Globo, MTV e TV Record) se debruça sobre a representação do negro também na TV pública. Atuando do sul da Bahia, na Universidade Federal do Sul da Bahia, Richard Santos fala também a partir do Sul Global e a partir da necessidade de cooperação Sul-Sul, epistemicamente afrocentrada e não necessariamente afroessencializada.

 

Por isso, ele se apresenta ao seu trabalho e ao seu público: “Não me pretendo africanista ou nomenclatura parecida: estas construções ideológico-intelectuais eu deixo para os pesquisadores em seus laboratórios de centros europeus e estadunidenses”, diz ele já na apresentação de Branquitude e televisão. A Nova África (?) na TV pública (Editora Gramma). Ao contrário, ele se diz “afro-brasileiro/afrodescendente/ negro/crioulo, amefricano” (amefricano é o termo utilizado por Lélia González para falar da africanidade da América Latina), mas alerta: “isso é apenas um carimbo racial imputado pelo outro”.

 

Ao introduzir Branquitude e televisão. A Nova África (?) na TV pública (Editora Gramma), Richard Santos compreende que não é possível aceitar o lugar racializado como natural. Por isso, ele funda o termo “maiorias minorizadas” como uma das grandes inovações terminológicas do nosso tempo, que compreende que não há “minorias”, mas um processo de “minorização” de maiorias, como é o caso dos negros e das mulheres. Portanto, ele fala como negro e quer que o negro seja representado como negro, mas não sem antes compreender as amarras raciais da colonialidade e do capitalismo que o trouxeram até aqui. Trata, mas não aceita a condição racial como imposta. Ela é, antes, sua armadura ancestral, aqui suplementada. Tal como a burguesia criou o proletariado para submissão e, que, após criado se tornou a arma da insubmissão na Europa, assim é o negro na colonialidade. Lendo claramente e muito bem o filósofo Achille Mbembe, o pesquisador Richard Santos é assertivo: a raça que foi criada para submissão agora é a arma ancestral de luta contra a submissão.

 

Branquitude e televisão. A Nova África (?) na TV pública trata, com linguagem clara e despretensiosa, da criação do programa A Nova África na TV Brasil durante o governo Dilma. Tendo sido criado numa TV de caráter público, fortalecida durante os governos progressistas e populares com intuito de gerar conteúdo democrático e popular, o programa teve 26 capítulos, com 26 minutos de duração cada. Com objetivo de tratar de maneira não estereotipada sobe a África, o programa apresentava em seu roteiro uma só apresentadora (africana). No entanto, como observa bem o pesquisador, não havia apenas uma apresentadora negra, mas outros dois apresentadores brancos brasileiros. Assim, o programa sobre a Nova África tinha dois apresentadores brancos em um país miscigenadamente preto.

 

Embora o ponto pacífico do ideal de miscigenação tenha sido o embranquecimento, o projeto racial brasileiro não deu conta de todo o território nacional. O Brasil é um país miscigenadamente preto. Se se quer construir a ideia de miscigenação e Nova África, ela deve passar necessariamente pela ideia de um país que ainda busca, dia após dia, embranquecer todos os espaços de poder. É o caso da TV Brasil, que, alcançando uma suposta tentativa de democratizar e popularizar a TV pública brasileira, consolida uma visão de branqueamento em seu programa destinado a (re) pensar a África.

 

Com prefácio de Rosane Borges e Amauri Mendes Pereira, o livro parte de seus questionamentos pensando politicamente a construção de negritude e branquitude no Brasil. Analisa, de maneira arguta, como o conceito de TV pública (com maioria branca, desde seu corpo administrativo até o seu conjunto de entrevistados, o que o faz através de dados consolidados) não modificou em nada o projeto político de construção da branquitude e negritude no país advindo da intensa colonização e escravidão negreira, em que a visão de desenvolvimento está entrelaçada diretamente à ideia de branqueamento do povo brasileiro.

 

Dialogando diretamente com pesquisadores na área, ele mostra como o projeto de branqueamento está profundamente emaranhado inclusive em governos populares ou mesmo no sentido de cooperação Sul-Sul. Assim, nesse conjunto de construção racista, o programa Nova África funcionou como uma espécie de “cota” de participação negra, em que, segundo próprio pesquisador, ocorreram uma série de problemas ligados ao próprio racismo epistêmico.

 

Desse modo, o texto por inteiro desconstrói a sanha racista estruturante no país postergada e reforçada por vários estudiosos da moderna sociologia brasileira, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr. O alicerce dessa sanha racista tem sido a construção de um projeto de nação em que os negros sejam o “eles” enquanto pessoas do discurso, portanto de quem se fala e não o “eu” ou o “nós”, que são as pessoas do discurso que falam. Toda a teoria sociológica, desde a ideia de cruzamento harmônico de Gilberto Freyre, a demonização do brasileiro cordial em Sérgio Buarque ou Raymundo Faoro, ou ainda a ideia de que bastava inserir o negro na sociedade de classes que o racismo acabaria de Florestan Fernandes vão encontrar forte oposição da fotografia crítica da realidade exposta no trabalho de Richard Santos.

 

Há alguns anos um movimento de flash mob e ocupação dos shoppings urbanos por jovens pretos e de periferia chamou muito a atenção nacional e ficou conhecido como rolezinho. Longe de ser uma ação estrutural ou se propor, o rolezinho se disseminou pelo país, após 10 anos de governos populares, para contestar a ação estruturante racista do mercado. Nesse ínterim, considero a passagem da africanidade nos programas de TV aberta também um rolezinho da africanidade nesse espaço de política do Estado brasileiro. Porém, como no âmbito do Estado, a ação não era pensada e criada a partir dos corpos negros pelos sujeitos identificadamente negros, mas o rolezinho do preto na TV pública era, como mostra a pesquisa de Richard Santos, disfarçado com posturas eurocêntricas, que há muito vêm sendo reproduzidas pelos canais de TV aberta ligados a grupos privados, como Globo e Record.

 

Branquitude e televisão. A Nova África (?) na TV pública é uma verdade da porteira para dentro. É um material riquíssimo escrito por um pesquisador progressista e apoiador dos governos de Lula e Dilma, mas marcado pelas políticas e signos de morte do racismo e consciente do seu papel tanto na defesa desses governos quanto nos questionamentos de como a branquitude e a colonialidade estão presentes também em espaços mais avançados e progressistas no espectro político. Não deve e nem pode ser menor contestar a estrutura da colonialidade e do capitalismo com esses dados, ao passo em que se fala de política com uma responsabilidade inarredável de quem não quer o negro lateralizado no lugar identitário da especificidade, mas como quem vê a negritude em toda forma de desigualdade latente no país e compreende que, para ser anticapitalista, é necessário antes ser verdadeiramente antirracista, combatendo desde o racismo institucional (que torna vítima o povo preto desde o genocídio até o encarceramento) até o racismo epistêmico (que continua permitindo a produção sobre o negro sem a presença e participação ativa de sujeitos identificadamente negros, os pretos).

 

 

O quê: Branquitude e Televisão: a Nova África (?) na TV pública

De quem: Richard Santos

Onde comprar: www.gramma.com.br

 

 

*Gabriel Nascimento é linguista, autor de dois livros, e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia.

Author: Brasil Cultura

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