Arte e feminismo: para além do gênero, uma arte política

Por volta das décadas de 1970 e 1980, artistas sob influência dos movimentos feministas e das teorias pós-estruturalistas começaram a questionar e a colocar em prática a importância de expressar em sua arte aspectos da personalidade individual e de certa dimensão particular de gênero em suas produções artísticas.

 

Por Naymme Moraes*

Naymme: Se todas as relações são marcadas pelas divisões de gênero, nada melhor que a arte para questionar essa diferença, que é pura e simplesmente cultural, promovida e patrocinada por instâncias de poder, dentre elas os museus e galerias de arte Naymme: Se todas as relações são marcadas pelas divisões de gênero, nada melhor que a arte para questionar essa diferença, que é pura e simplesmente cultural, promovida e patrocinada por instâncias de poder, dentre elas os museus e galerias de arte

Apesar de não existir um movimento de arte propriamente feminista, o que divide opiniões quanto ao termo até hoje, por conta de uma diversidade de produção e de artistas que não são analisadas em conjunto, é possível criar correspondências entre as principais artistas que reuniram temáticas similares naquele período e considerar os passos formais de mulheres de diferentes épocas e países, analisando também do ponto de vista filosófico e teórico essa produção em um caminho comum.

 

Apesar da crítica conservadora da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos na década de 1980, quando as teorias feministas nas artes visuais mal haviam insurgido e essa era arte acusada de feminização, a década posterior, de 1990, redescobre o radicalismo político e o contato viceral com a experiência subjetiva.

 

Os anos de 1990 inauguram exposições no mundo inteiro sobre a temática, inclusive resgatando histórias de suas precursoras tanto da década de 70 quanto de décadas anteriores, com umas das primeiras mostras de 1993,”Bad Girls”, na Grã-Bretanha.

 

A relação entre arte e feminismo encontrou abertura dentro das inquietações da arte contemporânea e de suas interpretações diversas sobre questões tais como corpo, gênero, sexualidade, identidade, autobiografia e memória, oferecendo uma quebra a partir do uso dessas temáticas do olhar de críticos, teóricos e do público, gerando a possibilidade de questionamento da própria arte.

 

Uma das artistas mais importantes do século XX, Louise Bourgeois, construiu uma vasta obra, onde as temáticas presentes nas suas esculturas nos remetem a fábulas como também às relações íntimas entre mães e filhos, através da influência dos estudos da psicanálise lacaniana da primeira metade do século passado.

 

A artista costumava dizer “o inconsciente é meu amigo”, quando se referia aos seus trabalhos,Trani Episode (1971-72); Pregnant Woman (1947-49) e Janus in Leather Jacket (1968); Femme Couteau (1969-70); Janus Fleuri (1968).

Louise Bourgeois Femme Couteau 1982. Collection Ellen Kern, New York

 

De outro lado, artistas como Adrian Piper e Shirin Neshat – que operam politicamente em seus trabalhos, não só em relação à misoginia, mas também em causas como o racismo, xenofobia e questões como as relações das mulheres no islã – estão cada vez mais atuantes.

 

Shirin Neshat, artista visual iraniana, vive em Nova York e é conhecida principalmente por seu trabalho em cinema, vídeo e fotografia. Sua obra faz uma ponte entre a antiguidade/modernidade de seu país e os contrastes entre “Oriente/Ocidente”, onde vive hoje, New York, além das questões como feminilidade e masculinidade, vida pública e vida privada.

 

Talvez uma das artistas mais atuantes da cena política contemporânea nas artes visuais seja Adrian Piper. Em abril desse ano, o MoMa fez uma retrospectiva de 50 anos de carreira da artista americana e de sua luta contra o racismo e a misoginia. As relações de gênero e o patriarcado sempre foram um dos alvos da artista.

 

Em 1986, ela projetou um cartão de visita que deveria ser distribuído para desarmar casos de agressão sexual. O cartão dizia: “Caro amigo, não estou aqui para pegar alguém ou ser pego. Estou aqui sozinha porque quero estar aqui, sozinha”. Adrian Piper procurou transcender as fronteiras entre arte e discurso público colocando o conceito de raça e gênero como fundamental para suas investigações. Com sua pele clara de ascendência afro-americana e branca, ela utilizou seu próprio corpo como catalisador social explorando a identidade não como uma categoria fixa, mas como um processo.

Apesar de todo o debate, o tema arte e feminismo ainda é considerado polêmico e causa desconforto na área artística. Existe uma resistência em alguns países, e o Brasil é um deles, quando se propõe um olhar mais atento para alguns trabalhos, como os deTarsila do Amaral, Maria Martins, Lygia Clark ou Lygia Pape, por exemplo. Isso sem levar em consideração a enorme resistência à mulher no mercado das artes visuais no Brasil, tornando a relutância por parte de algumas artistas em se assumir feministas ainda maior.

 

Estamos em 2018 e muitas questões ainda não são discutidas do ponto de vista de políticas públicas e educacionais, de inclusão artística e de representatividade. Quase não ouvimos falar em artistas negras e na estética queer, por exemplo, que assim como a política do feminismo nas artes visuais fogem das expectativas de um olhar direcionado de uma ideia clássica de beleza e de uma filosofia artística que corresponde a uma linguagem pré-vanguardista e naturalista, causando desconforto e desestabilizando o mundo familiar da arte.

 

Enfim, se existe ou não uma arte feminista, a questão central aqui é que modos de representação do feminino mudaram e as questões de gênero integram de modo indissociável a avaliação e a criação do objeto artístico. Se todas as nossas relações, das mais cotidianas, das mais simples às mais complexas, são marcadas pelas divisões de gênero, por esse fosso e pela violência que o patriarcado exerce sobre nós, nada melhor que a arte para questionar essa diferença, que é pura e simplesmente cultural, promovida e patrocinada pelas instâncias de poder, dentre elas os museus e galerias de arte.

 

Aqui vai uma listinha totalmente arbitrária e idiossincrática para começar a conversa e dar um gostinho para um próximo papo: Nancy Spero; Barbara Kruger; Niki de Saint Phalle; Lygia Clark; Yoko Ono; ChantalAkerman; Judy Chicago; Gina Pane; Marina Abramovic; Cindy Sherman; Sophie Calle; Barbara Hammer; Kiki Smith; NanGoldin; Francesca Woodman; Barbara Chase-Riboud; Senga Nengudi.

 

*Naymme Moraes é feminista, mestra em História e doutoranda em Sociologia pela UFPE.

Author: Brasil Cultura

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